quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Agarrados ao calão de guna

Tornou-se difícil actualmente definir o que é uma cultura própria, uma das faces da globalização foi projectar-nos variadas culturas tornando parte do nosso quotidiano o fenómeno da aculturação.
Todos os dias nas mais variadas formas, rituais, linguagens, gastronomia, moda, e por ai fora, entramos em contacto com fenómenos culturais que vêm do exterior, tornando-nos mais enriquecidos e completos mas correndo o risco de nos tornar também mais "parecidos". Mas a projecção das diversas culturas não é equalitaria, não o sendo também portanto o processo de aculturação. Se há um vencedor na projecção da sua cultura e do seu way of life são sem dúvida os E.U.A., na sua mais forte frente Hollywood claro, cada vez que lança um filme transmite-nos modelos de vida de pessoa e de estatuto que por ser repetirem, tanto como cada filme que vemos, nos criam conceitos, subliminares ou não, acerca de absolutamente tudo. Exemplo disso é a recente introdução, principalmente nos hábitos dos portugueses mais jovens, da comemoração do halloween. Outros exemplos positivos e negativos não faltam, eu não passaria sem o delicioso croissant! A aculturação pode ser positiva desde que seja equilibrada, racional e que não ponha em causa a nossa identidade e genuinidade. Quando começarmos a celebrar o dia de acção de graças ou o 4 de Julho essa barreira foi ultrapassada.
Mas isto tudo vem a propósito de um fenómeno muito mais local e hermético, penso eu que seja, que é a aculturação do estilo guna. Gunas, mitras, grunhos, manitos, (sem qualquer intenção de ser depreciativo) ou outra coisa qualquer que o comum jovem que os observa de fora gosta de lhes chamar, têm uma cultura bastante marcada, que por ser tão afirmativa parece agradar muito aos que estão no extremo oposto, ou a meio extremo vá lá. É interessante observar que uma grande fatia dos adolescente que nunca viveram no meio dos gunas, nunca foram um ou cresceram no meio deles, os imitam com toda a veemência. Manifestações disso são o crescente uso de brincos, as coreografias para se cumprimentarem ao invés do simples aperto de mão, e principalmente o vocabulário. Parece que nos dias de hoje se tornou "fixe" o comportamento de guna. Realmente esta personalidade demarcadissima, o poder de intimidação, o respeito alimentado pelo medo e a ideia geral de gangster ou bandido parece cativar muito um grande número de pessoas. É hoje comum ouvir nos meios menos previsíveis pessoas tratarem-se por "mano" ou a cumprimentarem-se com diversos toques, e quem já não ouviu o famoso "atão!?"? Nada a apontar a isto, cada um interpreta estes comportamentos à luz da sua pessoa, e não acho que sejam um problema. O problema começa quando absorvem o lado mau desta cultura e caem no ridículo, ou quando numa vontade de se projectarem tentam mostrar que são maus. Falta de personalidade, genuinidade e por ai fora. Não faltam hoje miúdos que estão prontos para andar à porrada e chamar mais vinte para organizarem uma batalha campal, cada um alegadamente mais maluco que o próximo. O ridículo que isto representa para mim só pode ser comparável ao nível de vazio que esta gente possui, nascidos e criados em meios privilegiados, sem nunca terem tido um pai que chegava a casa da tasca e os desfazia de cinto, ou uma mãe que ganhava a vida na rua, um irmão preso ou um primo morto ao tiro no bairro, que nunca souberam o que é passar privações, fazer sacrifícios ou não ter que comer, que desculpa têm estes para tais comportamentos? Estes comportamentos não são aceitáveis, independentemente de quem os perpetue, mas existem atenuantes a ter em conta dependendo dos casos. Agora querem ser dealers, andar de bastões e de facas, dizer que fazem e acontecem, fazer com que todos saibam que fumam ganza, gritar bem alto faz esse, soletrar até, para se alguém não tiver apanhado..
O gosto de se sentirem, parecerem e agirem como os marginalizados só se percebe por nunca o terem sido. O culto desta imagem exterior só se percebe pela inexistência de uma interior, como um boneco que procura a melhor máscara, derivam na procura da sua identidade, vasculham, copiam e competem não percebendo que no final a corrida é apenas, e só, com eles mesmos.


"Sejas feio ou bonito, branco ou preto, normal ou esquisito, rico ou do gueto, tens de pensar por ti próprio e deixar de ligar a vários ódios que não fazem nexo neste lugar" - Berna - Ódio Inconsciente (Reflexologia)

Um comentário:

Dr. Gonzo disse...

Acerca do uso do termo "mano" entre amigos, devo acrescentar que acho uma óptima aculturação, numa ideia de nos tratarmos como irmãos ajudando a estabelecer relações mais próximas. A cena de se tratarem por bro como me chamaram atenção vêm da cultura jazz e soul e nada tem a ver com o que eu me referia no post. Só para esclarecer