quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Espectro
-Ei, Amarelo! Porque é que és assim? assim amarelo?
-Oh! - retorquiu o Amarelo - o que achas? Porque quase todos os que vejo são amarelos também! E tu Verde? Porque és assim? Assim Verde?
-É estranho - riposta o Verde - exactamente pela mesma razão.
domingo, 8 de novembro de 2009
Conversas sérias
Felizmente espaços com interesse e responsabilidade jornalística vão também existindo, a exemplo disso assisti hoje a um novo espaço na Sic Notícias, moderado pelo Mário Crespo, com a participação de Medina Carreira, Nuno Crato e João Duque de nome Plano Inclinado. Devo dizer que é um alívio ouvir intervenientes esclarecidos falarem da realidade com seriedade. E não de um país imaginário que visivelmente parece existir na cabeça de alguns. Segundo estes senhores o cenário está cinzento para Portugal, de uma maneira muito simples conseguiram em aproximadamente uma hora fazer um diagnóstico que muitos, repetidas vezes teimaram em não tecer. Embora não conheça aprofundadamente estes senhores, a sabedoria e acutilância das suas palavras chegaram para me caírem no goto. Para resolver um problema é preciso assumi-lo e entendê-lo e só assim se encontraram soluções definitivas a longo prazo e não paliativas que só prolongam o problema e adiam o inevitável. Inevitável este que cresce proporcionalmente ao tempo que é ignorado, porque pela análise feita o caminho é a banca rota e a inviabilidade financeira. Caminha-se para uma situação em que vai ser impossível obter financiamentos pelo território nacional devido à tal dimensão do endividamento público, o que causará perante os mercados internacionais uma tal descredibilidade da capacidade de pagar a dívida contraída que será impossível obter crédito para o que quer que seja. Criando assim um buraco de investimento que no imediato causará congelamento de todos os projectos implementados, e no longo prazo inexistência de novos projectos bem como uma crise social sem precedentes. Porque já que não há projectos, não há trabalho, logo não há impostos e há mais encargos sociais, e quando este ciclo se iniciar no final a questão para as famílias não será se conseguem ou não pagar a casa mas se conseguem ou não ter comida à mesa. Urge o tempo de se abrir os olhos e se tomarem as medidas adequadas, o investimento público não será solução se este não representar um retorno superior à despesa, apenas prolongará durante mais uns tempos a ilusão de um emprego, e apenas agravará mais a situação da dívida, pois o país não tem capacidade de se financiar sem recorrer a crédito externo para este grandes investimentos, e se eles representarem prejuízo será apenas cavar mais num buraco que já vai bem fundo.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Escalas
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Memória
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Mais uma vitoria da abestenção
Parece que "nós por cá" temos uma óptima maneira de nos fazermos representar, ou melhor, de não nos fazermos representar! Parece ainda absurdo que depois de mais de 30 anos de "democracia" ainda ninguém tenha dito a quase 40% dos portugueses que sim, já se pode ir votar, já existem eleições pessoal.
Mas nem tudo é mau, ao invez de alguns que ainda não sabem que já se pode votar, existem outros, os que pensam que o boletim de voto tem 3 quadradinhos. Um bem haja a todos eles que por mais escandalos, incompetências, burlas e falhas governativas sucessivas ainda ingerem o alivio do veneno da amnésia a 30 anos e fecham os olhos ao estado de um país que tem sido guiado a alta velocidade (e ainda nem há TGV) para a cauda da europa, continuem, havemos de la chegar! :)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
quarta-feira, 1 de julho de 2009
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Investimento público
Esta noite sonhei com Mário Lino
Miguel Sousa Tavares
8:00 Segunda-feira, 29 de Jun de 2009
Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!
http://aeiou.expresso.pt/miguel-sousa-tavares=s23491
domingo, 28 de junho de 2009
Humor em tempos de crise
A XI edição do Porto Cartoon World Festival contou com a participação de 500 humoristas de 70 países e teve como temática central "as crises".
domingo, 24 de maio de 2009
M&M
Mais uma vez acho que o bastonário marca pela positiva, apesar de estar desde o inicio numa numa dura missão a remar contra a corrente.
Dá-lhe Marinho! :)
terça-feira, 19 de maio de 2009
Must
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Queres saber porquê?
"depois é ver a nossa oligarquia, erguer vozes contra esses chavais
que a sociedade marginaliza, e não quer que sejam marginais." - Valete
Fica a dica..
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Furious Angels
sábado, 28 de março de 2009
domingo, 1 de março de 2009
Bela maneira de começar o dia
Aconteceu na estação de Liverpool, em Londres. Foi segunda-feira de manhã e, depois, todos foram trabalhar numa energia maravilhosa. São 70 bailarinos misturados com passageiros que acabam por interagir nas danças. O espetáculo foi planeado e ensaiado 8 semanas, sem o conhecimento do publico, até que subitamente...
"Temos a arte para que a verdade não nos destrua" - Nietzsche
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
The Onion News
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Agarrados ao calão de guna
Todos os dias nas mais variadas formas, rituais, linguagens, gastronomia, moda, e por ai fora, entramos em contacto com fenómenos culturais que vêm do exterior, tornando-nos mais enriquecidos e completos mas correndo o risco de nos tornar também mais "parecidos". Mas a projecção das diversas culturas não é equalitaria, não o sendo também portanto o processo de aculturação. Se há um vencedor na projecção da sua cultura e do seu way of life são sem dúvida os E.U.A., na sua mais forte frente Hollywood claro, cada vez que lança um filme transmite-nos modelos de vida de pessoa e de estatuto que por ser repetirem, tanto como cada filme que vemos, nos criam conceitos, subliminares ou não, acerca de absolutamente tudo. Exemplo disso é a recente introdução, principalmente nos hábitos dos portugueses mais jovens, da comemoração do halloween. Outros exemplos positivos e negativos não faltam, eu não passaria sem o delicioso croissant! A aculturação pode ser positiva desde que seja equilibrada, racional e que não ponha em causa a nossa identidade e genuinidade. Quando começarmos a celebrar o dia de acção de graças ou o 4 de Julho essa barreira foi ultrapassada.
Mas isto tudo vem a propósito de um fenómeno muito mais local e hermético, penso eu que seja, que é a aculturação do estilo guna. Gunas, mitras, grunhos, manitos, (sem qualquer intenção de ser depreciativo) ou outra coisa qualquer que o comum jovem que os observa de fora gosta de lhes chamar, têm uma cultura bastante marcada, que por ser tão afirmativa parece agradar muito aos que estão no extremo oposto, ou a meio extremo vá lá. É interessante observar que uma grande fatia dos adolescente que nunca viveram no meio dos gunas, nunca foram um ou cresceram no meio deles, os imitam com toda a veemência. Manifestações disso são o crescente uso de brincos, as coreografias para se cumprimentarem ao invés do simples aperto de mão, e principalmente o vocabulário. Parece que nos dias de hoje se tornou "fixe" o comportamento de guna. Realmente esta personalidade demarcadissima, o poder de intimidação, o respeito alimentado pelo medo e a ideia geral de gangster ou bandido parece cativar muito um grande número de pessoas. É hoje comum ouvir nos meios menos previsíveis pessoas tratarem-se por "mano" ou a cumprimentarem-se com diversos toques, e quem já não ouviu o famoso "atão!?"? Nada a apontar a isto, cada um interpreta estes comportamentos à luz da sua pessoa, e não acho que sejam um problema. O problema começa quando absorvem o lado mau desta cultura e caem no ridículo, ou quando numa vontade de se projectarem tentam mostrar que são maus. Falta de personalidade, genuinidade e por ai fora. Não faltam hoje miúdos que estão prontos para andar à porrada e chamar mais vinte para organizarem uma batalha campal, cada um alegadamente mais maluco que o próximo. O ridículo que isto representa para mim só pode ser comparável ao nível de vazio que esta gente possui, nascidos e criados em meios privilegiados, sem nunca terem tido um pai que chegava a casa da tasca e os desfazia de cinto, ou uma mãe que ganhava a vida na rua, um irmão preso ou um primo morto ao tiro no bairro, que nunca souberam o que é passar privações, fazer sacrifícios ou não ter que comer, que desculpa têm estes para tais comportamentos? Estes comportamentos não são aceitáveis, independentemente de quem os perpetue, mas existem atenuantes a ter em conta dependendo dos casos. Agora querem ser dealers, andar de bastões e de facas, dizer que fazem e acontecem, fazer com que todos saibam que fumam ganza, gritar bem alto faz esse, soletrar até, para se alguém não tiver apanhado..
O gosto de se sentirem, parecerem e agirem como os marginalizados só se percebe por nunca o terem sido. O culto desta imagem exterior só se percebe pela inexistência de uma interior, como um boneco que procura a melhor máscara, derivam na procura da sua identidade, vasculham, copiam e competem não percebendo que no final a corrida é apenas, e só, com eles mesmos.
"Sejas feio ou bonito, branco ou preto, normal ou esquisito, rico ou do gueto, tens de pensar por ti próprio e deixar de ligar a vários ódios que não fazem nexo neste lugar" - Berna - Ódio Inconsciente (Reflexologia)
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Foda-se, não fui eu mas podia ter sido
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à
quantidade de "foda-se!" que ela diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma
pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então,
foda-se!"
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos
extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário
de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos
mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua
língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que
vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a
ideia de muita quantidade que "comó caralho"?
"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão
matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a
mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!".
Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem
nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.
O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto.
Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades
de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro
para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro
Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema,
e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu
correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente,
sílaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito
assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se
reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um
merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua
maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"?
Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus
quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de
seu interlocutor e solta:
"Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima.
Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar
firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado
amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de
maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a
sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para
uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de
ameaçadora complicação?
Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor
num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo
assim como quando estás a sem documentos do carro, sem
carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a
mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada
funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a
saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os
empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e
em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a
desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”
Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e
foda-se!!!
Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!
Foda-se, por Millôr Fernandes
(adaptado)
