segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A aventura

"E depois, bruscamente, parte-se qualquer coisa. A aventura acabou, o tempo retoma a sua moleza quotidiana. Viro-me; atrás de mim, uma bela forma melódica mergulha inteira no passado: diminui, contrai-se ao declinar; já o fim se lhe confunde com o princípio. Ao seguir com os olhos esse ponto de ouro, penso que aceitaria - mesmo se tivesse estado em perigo de morrer, se tivesse perdido uma fortuna ou um amigo - reviver tudo, nas mesmas circunstâncias, dum extremo ao outro. Mas uma aventura não recomeça, nem se prolonga." (...) "Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura, é preciso, e é bastante, que nos punha-mos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la" (...) "Quando se vive não sucede nada. os cenários mudam, as pessoas entram e saem; é tudo. Nunca há princípios. Os dias sucedem aos dias, sem tom nem som; é um alinhamento interminável e monótono. De vez em quando tira-se um total parcial; diz-se: «Há três anos que ando a viajar, há três anos que estou em Bouville.» E finais também não há: nunca se deixa uma mulher de uma só vez, nem um amigo, nem uma cidade."

In A náusea, Sartre

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