domingo, 8 de novembro de 2009

Conversas sérias

As assimetrias de informação são realmente de uma dimensão extraordinária. Assiste-se nos média nacionais maioritariamente a tentativas de formação de opinião disfarçadas de comentários unilaterais, muito mais do que análises sinceras e legítimas sem quaisquer pretensões pessoais ou colectivas. A influência destes comentadores/analistas é inequívoca e portanto com o grande poder que carregam deviam também carregar uma verdadeira responsabilidade. Não só nos ombros deles mas também nos dos que os põe a analisar/comentar. Na minha opinião, para se ter uma análise séria pode-se optar por dois tipos de abordagem: ou se convidam indivíduos que abertamente assumem lados e portanto convidam-se todos os lados, para haver uma discussão à sombra da democracia em que todos gostamos de acreditar que vivemos, ou convidam-se profissionais, pensadores ou especialistas, devidamente credenciados, que façam análises à luz da sua pessoa e não de uma qualquer bandeira ou estandarte. Torna-se um exercício de paciência assistir às animadas conversas que alguns destes senhores vão ensaiar para todos nós, atento público, que padecem de um total alheamento da realidade dos factos e dos problemas palpáveis, que o comum do cidadão sente diáriamente, ou então vão disparar banalidades e difundir opiniões que qualquer verdadeiro analista classificaria de anacrónicas e totalmente ignorantes, mas como a forma conquista muito mais que o conteúdo, e como é mais fácil saciar do que saborear, o modelo teima em persistir.
Felizmente espaços com interesse e responsabilidade jornalística vão também existindo, a exemplo disso assisti hoje a um novo espaço na Sic Notícias, moderado pelo Mário Crespo, com a participação de Medina Carreira, Nuno Crato e João Duque de nome Plano Inclinado. Devo dizer que é um alívio ouvir intervenientes esclarecidos falarem da realidade com seriedade. E não de um país imaginário que visivelmente parece existir na cabeça de alguns. Segundo estes senhores o cenário está cinzento para Portugal, de uma maneira muito simples conseguiram em aproximadamente uma hora fazer um diagnóstico que muitos, repetidas vezes teimaram em não tecer. Embora não conheça aprofundadamente estes senhores, a sabedoria e acutilância das suas palavras chegaram para me caírem no goto. Para resolver um problema é preciso assumi-lo e entendê-lo e só assim se encontraram soluções definitivas a longo prazo e não paliativas que só prolongam o problema e adiam o inevitável. Inevitável este que cresce proporcionalmente ao tempo que é ignorado, porque pela análise feita o caminho é a banca rota e a inviabilidade financeira. Caminha-se para uma situação em que vai ser impossível obter financiamentos pelo território nacional devido à tal dimensão do endividamento público, o que causará perante os mercados internacionais uma tal descredibilidade da capacidade de pagar a dívida contraída que será impossível obter crédito para o que quer que seja. Criando assim um buraco de investimento que no imediato causará congelamento de todos os projectos implementados, e no longo prazo inexistência de novos projectos bem como uma crise social sem precedentes. Porque já que não há projectos, não há trabalho, logo não há impostos e há mais encargos sociais, e quando este ciclo se iniciar no final a questão para as famílias não será se conseguem ou não pagar a casa mas se conseguem ou não ter comida à mesa. Urge o tempo de se abrir os olhos e se tomarem as medidas adequadas, o investimento público não será solução se este não representar um retorno superior à despesa, apenas prolongará durante mais uns tempos a ilusão de um emprego, e apenas agravará mais a situação da dívida, pois o país não tem capacidade de se financiar sem recorrer a crédito externo para este grandes investimentos, e se eles representarem prejuízo será apenas cavar mais num buraco que já vai bem fundo.

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